Mostrando postagens com marcador Ao útero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ao útero. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ao Útero


Não é com carne humana que te moldo, querido Paolo.

Não é com genes, nutrientes e placenta que te revisto para existir. Não é de mim que nasce. Ao contrário, eu parto de você...

Como água corrente e barulhenta junto ao cais, entre as espumas de sal, eu existo.

Como princípio débil inicialmente e luz fraca sem vontade até que me torne algo mais substancial, jorro. Eu aprendo de você, mestre prodígio. Sábio sem rugas. Anjo e fauno.

Tudo com que te cubro é a ilusão de verdades soltas, ritmadas. Como em som ou pintura. Na busca de tentar capturar o fulgor sobre cílios e pálpebras, a retidão das articulações e o estado da tua boca que devora e digere o silêncio feito remédio amargo, conduzindo-o pela tua garganta rumo ao absorver mecânico, fechando as feridas que abro todas as noites com o tilintar de foices e pás rudes. Curando a nós dois na imprecisão desse Tempo que corresponde ao terceiro sobrevivente de nossa relação. Como amante muito dissimulado e exigente, dando-nos e tirando o suficiente para nos devastarmos e amarmos quantas vezes for necessário. Tempo.

Adorado menino, você me pergunta se eu o amo, esperando a dor. Mas recebe a doçura e a paixão turbulenta de meus músculos tesos, dos meus abraços esquivos, beijos tempestivos, tudo o que tenho para dar, meu mais lapidado tesouro, meu quilate. Então, nada você sabe do que faz conosco.

Porque é o sim que recebe. E o mundo ainda se torna mais perigoso, desprovido de cordas vocais, frente ao sim.

Procuro te transportar para o universo suave e diáfano da escrita, mas a cada letra datilografada, você evapora de mim com o peso de pedras em desmoronamento. Cai com a força da natureza, devastando a curvatura das palavras, lacerando os cantos do papel. Cai com sua própria força. Insustentável.

Aqui, tento te salvar. Te preservar do caos, do nosso companheiro Tempo que saliva, lambendo unhas frente a tentação de nos devorar. Aqui você germina puro e eterno. Como astro e estrelas. Criação. Força motriz imutável. Eterno. Amante e criança. Mestre do meu amor.

É a minha forma mais primitiva, mais brutal de dar afeto. Construir uma atmosfera para que se sinta confortável, respirando ares mais propícios, despertando humores mais saudáveis.

Aqui não existe o Tempo. É o lugar sagrado de nós dois, Paolo. Minha forma de driblar mudanças. O quarto secreto onde sempre nos encontraremos quantas vezes for necessário. Onde você sente o meu perfume, abre caminhos pela pele nua frente a sinuosidade de veias e artérias, se torna líquido.

Antes que o mundo nos reivindique o direito de ser parte e não arte viva de suas entranhas implorando para não morrer, nos amemos aqui, príncipe das marés altas que aqui dentro navegou.

(Lígia)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sirène


"Derramou seu amor confidencial, alcalino enquanto ouvia a ópera atravessar as paredes que ergueram e erguiam ao seu redor. Ouviu Mozart. Rainha da Noite.

Isabelle possuía braços finos, lábios finos, pernas finas. Consolidava-se como formas longilíneas de sobriedade e caos. Se a pressionasse mais, quase podia quebrá-la. Se a apertasse mais, podia despedaçar. Magoar sua pele. Sentir os seus ossos. Era daqueles tipos de garotas anoréxicas. Muito pequenas. Quase ilusórias em sua leveza de indecisão entre física e metafísica. Estranhamente, transmitindo infinito.

Não houve dor, nem aquela força descomunal de ternura extraída. Nunca provocada.

Não foi breve. Nem incorpóreo, ou insípido. Incômodo ou incoerente. Inconcebível ou insensível.

Era o estranho assentamento de emoções. O caos se camuflando de calmaria para novamente recomeçar. Era o som agudo da Rainha da Noite ferindo os pés dos anjos. A poeira de dias secos deitando-se sobre o chão. Sobre elas.

O mundo arcava com todos os sentidos. A feminilidade habitando em si. Era a felicidade em manhã de domingo infeliz. Todas as disparidades adolescentes que se ampliam em profundidade sem razão. Que movimentam a dureza humana no mais emotivo frêmito. Todo o universo intransponível. Com Isabelle. Em Isabelle. Para Isabelle, seu amor."


terça-feira, 16 de junho de 2009

C6H5-CHO+C10H16O em segunda (07:33 A.M.)

"Era doloroso andar por esses asfaltos quando a anestesia entorpecente, eufórica lhe abandonava o corpo. Estado de fraqueza. De ressaca. Quase doença.

Em manhã cinza, indecisa entre gotas de chuva minguadas ou raios de sol esquálidos, Paolo farejou um perfume entre os corpos. Enquanto o tempo se decidia entre fenômenos debilitados naquele dia, Paolo acendeu-se por trinta segundos. Quarenta, no máximo.

Cheiro doce mesclado a odor mais cítrico. Lígia fragmentada em seus cigarros de cereja e em três gotas de perfume no pulso. Paolo não pôde evitar procurá-la na multidão cinzenta que saía dos subúrbios-túmulos para os trabalhos. Estava se acostumando pouco a pouco a ser servil. Entre as pessoas que o contornavam na calçada, buscava. Aspirava o ar. Os olhos fundos como covas se moviam.

Reunir cítrico e doçura deveria ser uma arte. Túlio sempre lhe falava de química. Amava química. Gostava de passar horas realizando combinações dessas cadeias carbonocêntricas. Gostava de testar resultados. De lhe incutir esses saberes.

Mas Túlio não lhe falava do universo, do baque surdo, da perda de chão causados por essas combinações. Citral e cereja coexistindo para lhe roubar os sentidos por trinta segundos. Dez de dor equilibrando-se com saudade.

Lígia lhe olhando por sobre o ombro ao entardecer. Lígia emancipando o solstício em tarde de sol para lhe dizer algo que nem eram palavras. As pessoas quando envelhecem às vezes falam menos.

Nas lembranças, os silêncios adquirem respeito. Cavam sentido.

Paolo desistiu de procurá-la na calçada. Quarenta e um segundos se passaram. O cheiro se fora. Agora estava desmembrado como o pequeno universo de lembrança em catálise e erosão. Provavelmente, partira do batom adocicado de alguma garota de Nabokov e o cheiro cítrico de alguma mulher de Balzac As duas separadas. Não sendo ao mesmo tempo.

Paolo estava abatido por essa paixão violenta e impiedosa. Um garoto de dezesseis amando uma senhora de trinta e seis. Estabelecendo poesias empobrecidas e banais ao amanhecer na rua como algo pequeno e típico de sua idade. Por Lígia que lhe acharia patético. Como algo pequeno e típico também da idade dela.

Espreme-se nessas linhas algo muito amargo de seres empobrecidos. Solitários. Estados que se desenvolvem de forma estratosférica nas guerras mais brutais do silêncio. Do íntimo.

Estados de fraqueza. De ressaca. Quase doença."


(Ao Útero)