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segunda-feira, 1 de março de 2010

Muda



Preciso da vida simples dos campos,

das colinas, do corpo da natureza

suave em penugem limpa

com o cheiro verde

de mãos em raízes

da vegetação incerta

do suor da chuva

e das maçãs do rosto em punhados de terra

para andar até mim mesma

e contemplar o essencial nascer

o essencial se pôr

e cá morar

como vida também simples

necessitando de menos

e sendo menos


A vida dos campos

Longe do ar rarefeito, maciço

e do choque anestesiante das metrópoles

da explosão elétrica em neon,

De vozes sem nada dizer

por corações ligados a tomadas

O viver ramificado ao concreto

do vazio concreto

Quero plantar a alma

Como flor muito miúda

Em solo mais fértil

E em todas as direções vê-la se expandir

Como mar de vida daninha

Florescer

Acenar ao vento

com esse cheiro branco

de liberdade se movendo livremente

tão natural

naturalmente correndo

sangue em artérias

esguichando de mim

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ondas




Quebra-te entre as pedras,


Arrancando do pincel unhas e cerdas


Mar salgado, água em ponto solto


Tempestade-pus do que aqui jaz morto



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Em quanto


Putrefato com suas meias brancas



e seu sorriso amarelo,



fazendo coisas repetidas



uma, duas, tantas vezes ao dia



num arco perfeito



de mãos e pés



quase imperceptíveis



Quando algo em você aleija



e se arrasta tão banal



socando paixão em jaula



de querer ser



e poder ser



forma mais bela,



costura os buracos da alma



e a fenda das entranhas



que te tingem assim



de incomensurável branco



feito cal



ou pó



branco do silêncio



solidão pungente



branco do papel



tão mudo nada



Gosto da força dos guetos



da depravação colorida



do caos carnaval



do direito de chorar, de só rir



e de morrer ao meio-dia



Gosto do arroto da vida



que regurgita



assim tão brutal



feito vulcão ressonando



estourando índices



tímpanos



antes de voltar a dormir



Criança dos deuses