domingo, 22 de março de 2009

Mermaid


"Maria Contreiras ainda guardava em padrões trôpegos, asfixia encoberta, a memória corpórea de dedos invasivos. De beijos invasivos. Da untuosidade do sangue em meio a rupturas brutais. Lembrava-se de membrana rompida e de alma tremendo aprisionada em corpo. Lembrava-se de como era desejar com cada fibra, célula, capilar a própria morte.
Do estupro que sofrera aos dezesseis, os médicos constataram dois dedos quebrados, um braço fraturado, dois nervos rompidos, escoriações nas mãos, hematomas sobre a superfície das pálpebras, três dentes quebrados, um deslocamento na mandíbula, na pélvis e uma fratura no joelho direito. E em uma análise geral, podia se constatar que a mente teria ainda mais problemas menos óbvios, invisíveis ao raio-X.
Pobre Maria, pensavam todos... Talvez tivesse um futuro brilhante pela frente em outrora. Mas agora, estava ferrada demais e tudo se misturava nesse borrão amargo com gosto de vida onde suspiros pesarosos entrecortam os hiatos.
E ela não superaria a perda de Isabelle. Sobre esse assunto, nada se dizia porque Maria não abriu a boca por semanas e se refugiou em si mesma para chorar a ausência daquela presença ausente. Distante e ainda assim tão enraizada em seu núcleo, Isabelle.
Maria se silenciou e aos poucos todos acreditavam que morria. Definhava como as coisas bonitas arrancadas do mundo definham. Em seu pranto mudo, achavam que costurava sua própria mortalha.
No entanto, Maria voltou a pintar semanas depois. Séria. Com os dedos ainda fraturados. E deu início íntimo e conturbado à revolução pequena, calada e histérica que se revolvia algumas vezes dentro de si. Como estopim, escoamento de tudo que lhe feria com brasa e agonia.
A vida era injusta e lhe roubara tudo que tentara preservar guardado em santuário sem altar.
E como já se falou da Revolução, sabe-se da Revolução do Chile que palpitava nas ruas que circundavam Maria e seus familiares. Do barulho de vozes, armas, imprensa, democracia e força motriz de nação que rangia sobre o solo estreito da América sulista.
O mundo mudava e Maria nada tinha a dizer.
Porque sentia tanto que sua voz se dissolveria na tentativa de aprisionar os solavancos de abstrato. Da dor que confunde e retalha as vísceras, o espírito e algo mais que se soma a tudo presente no santuário.
Então, entre pinceladas violentas, entre a vontade de atravessar telas com tinta, de gritar sem mover um músculo em seu rosto, de chorar toda dor que de tão pesada aniquilava todos os outros sentimentos, tomando-a inteiramente para si, tudo se transformou em voz. Em voz que se vê. Que se toca.
Como se sabe, contrariando a todas as expectativas e desenganos de diagnósticos, ela permaneceu em seu ateliê.
Pintava.
Mesmo quando a dor-amarelo-agonia, tornou-se mais densa e se transformou em vermelho-ira-coágulo.
E as pinturas de Maria Contreiras três anos depois viriam a se tornar conhecidas no Chile como as pinturas mais tristes do Ocidente. Mais tarde, as Américas se tornariam pequenas e os quadros de Contreiras chegariam a Amsterdã e Londres. Voz percorrendo o vento e tropeçando sobre as cabeças. Dor arrancada da raiz humana enfileirada em exposições. Agressivas. Sublimes.
Cizos pendurados como colares em paredes. Dor cáustica. Tudo que pode ser trágico porque Maria tinha sanidade em risco. Precisava gritar.
E ainda sem nada dizer, ela se afundou em relacionamentos fugazes. Em solidão estratosférica. Em mundo de cores e artistas. Em vinhos caros, tequila. Em lembranças em preto e branco do dia em que um fotógrafo colocara Isabelle ao seu lado, capturando seus cabelos desgrenhados, seu deslocamento perturbador.
Maria aprendeu a chorar também com tinta óleo. Pois em si, tudo secava. Todas as emoções pairavam naqueles quadros violentos. Sem perceber, se tornava fria. Exauria-se. Tanto quanto suas pinturas ardiam em febre.
E nada mais há para se dizer. Porque a vida prosseguiu. Silenciosa e barulhenta.
Telas grunhiam. Arte cantando por ela. Em dó maior."
(Ao útero- Rafaella Pastana)

sábado, 21 de março de 2009

"Tenha até pesadelos se necessário for, mas sonhe..." (Pagu)

(Pagu/Patricia Rehder Galvão- Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962)

Pagu
(Rita Lee)

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem
Sou rainha do meu tanque, sou pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem, minha mãe é Maria ninguém
Não sou atriz, modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima
Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem



Patrícia Rehder Galvão (Pagu- 1910- 1962) foi militante, escritora, fez parte do movimento antropofágico e do grupo esquerdista, ao lado de Oswald de Andrade, Geraldo Ferraz e Raul Bopp. Dedicou anos de sua vida à luta na esfera cultural e deixou para o mundo um conjunto de obras provocativas, intensas e explosivas. Acho muito digno. Excelente, aliás.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Quarta-feira

By: Priscila Azulay

Quarta-feira é dia. Tudo sempre acontece na quarta. Parece que tem mais gente nas ruas, nos ônibus. Sempre tem mais coisas pra fazer.

Pra mim, pelo menos, desde criancinha, era sempre o dia em que as aulas iam até mais tarde. Era sempre o dia que começava com dois tempos diretos de matemática e depois dois de português. Era também o dia de cursinhos de inglês e ginástica. Nada contra todas essas coisas (bem, contra matemática eu tenho). Mas tudo junto num dia só ninguém merece. Estão falando em interdisciplinaridade. Já vem tarde, porque finalmente matemática, português, física e história fariam sentido juntos. Enquanto isso, podiam estudar melhor essa distribuição. Qual o problema com a quarta? Só porque não está nem cá nem lá tem que ter tudo de cada um? Aí, fode...

E estudar astrologia seria bom também para organizadores do calendário escolar. Quarta-feira é dia de Mercúrio, deus dos mensageiros. Por isso o mundo está sempre cheio de coisas a serem ditas na quarta. Tem que sobrar tempo pra gente bater papo também.

Vinte e tantos anos e cá estou ainda na luta toda quarta. Rafa também. Nessa última não podia ser diferente. Oito da manhã, "Prática de Ensino", que pra Rafa significa acordar às cinco da manhã. Que não vai ter prática nenhuma antes de dar a volta ao mundo pra saber de horário e afins.

Vamos Rafa e eu pro Fundão depois da aula. Na volta, a primeira bizarrice do dia. Um cara na van dando em cima de mim. Acreditar no destino é uma merd@, porque me faz dar corda pro primeiro maluco que aparece, não importa onde. O cara começou lendo o meu jornal comigo e terminou me oferecendo o headphone pra escutar com ele. Não é que o gosto musical batia? Rafa vira pra trás, se assusta, e discretamente: “Quem é?” Não sei. Acabei de conhecer. E ela, como já me conhece, releva. Valeuzão, Rafa. Você é muito compreensiva. E desculpa quase fazer você correr comigo atrás da van quando me toquei de que fui idiota não pegando o e-mail do doido. Todo doido reconhece um igual. Em outras palavras... não preciso dizer. Talvez eu o encontre numa comunidade do Orkut; “Pegação na van”. Se não tiver, eu fundo. E alguma hora ele entra.

Deixando o maluco de lado, chegamos em casa sob o sol de meio-dia e sabendo que a luta ainda estava no meio. Almoço, uma horinha pra reinar no sofá, e fora de casa. Atrás do estágio. Passando um papo furado de tapioca na praia, convenço a Rafa a ir andando. A expectativa de uma tapioca a cada esquina nos motivava a seguir. No final, porr@ nenhuma de tapioca. Desculpa de novo Rafa, mas eu adoro caminhar contigo!

Na escola, descobrimos que não dava pra descobrir nada. No caminho de volta, sentamos no Habibs (se escreve assim, essa poh@?) da praia. Finalmente, um descanso. Papo vai, papo vem. Ventania vai e vem... Um relâmpago vai, outro vem. E quando nos demos conta, estávamos ilhadas no meio do dilúvio, abrigadas apenas pela barraca do Habibs. Dois rapazes israelenses (ou suecos, ou húngaros) estavam presos conosco. Pena estarem com a mãe. Bem que eles tentaram se chegar quando nos viram tremendo de frio. Rafa estava encolidinha tentando se aquecer e o israelense (ou sueco ou húngaro) começou a fazer gestos para ela, dizendo que não sentia frio nenhum. Que sentia muito calor com o nosso clima. Com um sorrisinho fez cara de sedutor israelense (ou sueco ou húngaro).

Safadinho, não?

Duas horas depois, quando a chuva deu uma (pequena) trégua, pegamos um táxi gelado, no qual o taxista me deu um forão quando pedi pra desligar o ar condicionado. Ensopadas, parecendo dois pintos molhados, chegamos em casa. Nos munimos de guarda-chuvas (pro diabo com a reforma ortográfica! Hífen, é nós!) e fui deixar a Rafa no metrô. No metrô, um homem barbudo e à toa queria levar todos para Caxias e se esgoelava na estação Siqueira Campos, dizendo que quem com ele estava, estava com Deus. Seria melhor ele como divino, apresentar então uma arca para atravessarmos o dilúvio. A chuva a essa altura, voltara a ser torrencial.
Terminamos o dia "felizes", com sensação de deveres cumpridos, e a Rafa com um pique admirável pra quem tinha acordado tão cedo!


Essa mulher não dorme nunca. Isso é um mistério. Juro. Parece uma coruja.

Falando em animais, não posso esquecer de mencionar o felino malhado e filhote que encontramos na UFRJ, que fez o maior pouco caso quando o pegamos no colo, mas que é lindo de qualquer jeito e é o mais novo mascote da Letras!

Fora isso, quarta-feira é sempre uma droga. Só lamento.

Particularmente, nem gosto muito de utilizar blog com a finalidade narrativa do cotidiano. No entanto, Priscila produziu esse texto e me senti no direito/obrigação/desejo de publicá-lo. Porque é fato que nem toda quarta-feira é catastrófica, mas que a maioria dos desastres ocorrem de fato na quarta.

E a melhor maneira de combatê-la é com bom humor. Essa quarta foi tranqüila (trema forever!) em relação a muitas outras bem piores. No fim de tudo, o que se sobra é o risinho. Bom humor nela! Valew, Priscila! ;)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Let's make love and 'write' death from above...


“30 de agosto

Caro Klaus,

É patético o modo como os homens comportam-se, achando que no seu dia-a-dia já encontraram ou tocaram todas as sofisticadas belezas e sensações que o mundo pode oferecer. Sinto-me agora como um dos maiores ignorantes de minha época.
Agora, posso enxergar-me claramente e ver que jamais apalpara a sã consciência de algo superior. Somente tocara resquícios empobrecidos e miseráveis.
É graças à ti, sobrinho adorado, que pude contemplar a luz ontem à noite. Tê-lo em meus braços com a intensidade com que te entregaste a mim foi como ser assolado pela mais plena alegria. Ainda tremo ao lembrar de teus olhos tão cálidos e embaçados por filetes de felicidade que brotavam de teu coração.
Tocamos o Paraíso com nossos dedos ávidos. Era como a Índia de minha infância que quero que um dia conheças. Senti o aroma característico e a paz que há muito não sinto. Vi-te chegando até mim com tatuagens de henna por teu corpo mirrado e murmurando orações no mais exótico dos dialetos. A mais bela “Padma”. Uma Flor de Lótus com enormes olhos verdes e cabelos claros que caem sinuosamente por um rosto que faz poetas suspirarem. Ontem, pude enxergar meu amor quando o toquei. Não somente o ópio levou-me para essa maravilhosa realidade alternativa onde tu eras minha noiva. Minha princesa indiana.
Nossos sentimentos são os principais responsáveis. Para o inferno com coerências e verdades absolutas que nos forçam a acreditar. No fim de tudo, é melhor a loucura. Podemos ser como quisermos. Nada mais será como o que foi há tempos que parecem distantes como sonhos embaçados e mofentos. Meus olhos tornaram-se maiores com tua graça, Klaus. Cada beijo que trocamos foi uma afronta a esse mundo e um passo para aquilo que chamas de Inferno. Nossos gozos são lírios em teus lábios ou em minhas mãos.
O momento que te conheci veio à minha cabeça. Lembro-me de que apesar de tua inocência já perdida na noite em que te toquei pela primeira vez, tremias como uma virgem que é apresentada ao carrasco. Havia medo no mar barulhento de tuas pupilas. Dei-te a oportunidade de recusar-me. Porém, com tua coragem da qual ainda sou um servo que se ajoelha, tu aceitaste. Tu fechaste teus olhos de boneca e pensaste: “Eu irei com ele. Eu quero fazer parte de seu mundo...”. Agora já é tarde demais, amor....
Tarde demais até para tua juventude que me lembra as flores de primavera que antecederam seu tempo de desabrochar e acabaram perecendo na neve de uma manhã sem harmonia.
No fim das contas, como todos os infelizes, possuo emoções. Mesmo que digam o contrário não sou um mero devasso que pratica as mais incabíveis luxúrias sob seu teto...
Dentre as minhas mágoas, desconheces a maior delas. Esta me assola quando encontro-me sozinho em meu gabinete e projeto-te diante de meus olhos daqui a alguns anos. Vejo-te como um homem e não um jovem precoce. Consigo visualizar-te usando roupas sóbrias e escuras, deslizando languidamente com cabelos bem cortados por entre nevoeiros densos de uma Londres moderna. Teu destino, deduzo eu, seria a casa de alguém de tua idade que cortejarias.
Eu, por minha vez, já estaria morto observando de algum lugar os conservadores que ainda estivessem vivos cuspirem com gosto sobre meu túmulo. Ou então, estaria louco e inválido, vivendo uma vida miserável. Seria um estorvo decadente para ti. Todos os dias antes de saíres para encontrar a pessoa com quem te importaste, olharias-me com rancor e uma mistura de asco e pena. Tu me ojerizarias. Um velho que precisaria da ajuda de terceiros para ainda assim viver uma semi-vida. Lembrar-te-ias com pesar daquele tio que o envolvera em sua vida triste, apontando-lhe um mundo de nojeiras fétidas.
Eu choraria com meus olhos opacos e morreria a cada dia.
Não nascemos na mesma época. Talvez seja esse meu castigo.
Não há somente o presente. Existe um futuro incerto e exigente que me faz lembrar o tempo todo que a minha velhice é um breve murmúrio de derrota perto de tua exuberância e frescor juvenis.
Ironicamente, não consigo mesmo assim me afastar de ti. Acho-te muito parecido comigo. Comemos da mesma imundice e bebemos da mesma latrina. Porém, todos teus pecados são perdoados por tua pouca idade. Pouca idade esta que talvez um dia amaldiçoe. Se daqui a alguns anos, no entanto, minha vida for o martírio, aproveitarei esse presente extasiante. Através de meu sentimento por ti, vejo todas as cores de um mundo muito superior a este. Um mundo onde o sol é quente e avermelha tuas faces pálidas.
Permanecerei contigo até quando quiseres.
Estarei ao teu lado até que eu seja deixado junto com as mobílias sem utilidade e coberto por poeira densa de um velho mundo que se resvala entre nossos dedos...

Para sempre seu,
Vincent”

Esse texto é super antigo. Qual escritor (ou pretenso) nunca se divertiu com textos ultra-românticos e tentou escrever histórias sofridas, de amores impossíveis e trágicos à altura dos cânones? Pois é, eu adorava escrever folhetins românticos há uns dez anos atrás. Hoje em dia, nem faço mais tanto isso. Mas tudo fluía com pinceladas e cores bem contemporâneas e ousadas para um padrão Romântico. E eu me divertia muito com minha professora de literatura quando ela com um risinho eloqüente e exaperado dizia "Ai, ai, menina, por que você escreve essas coisas?"

domingo, 15 de março de 2009

Electricity


"We got a love that's cold as stone. We got a love from our violent homes. We got a love and it got no name. We kiss our love with lips like pain. We got a lotta electricity. We got a love like AC/DC. We got a love and it got no shame. We kiss our love with lips like pain. We got a love like a violent mind. We get our love from white white lines. We got a love and it got no name. We kiss our love with lips like pain. We got a love from nowhere towns. We got a love like electric sounds. We got a love and it got no shame. We kiss our love with lips like pain. I said, it's bigger than the universe. It's bigger than the universe. It's bigger than all of us. It's bigger than you and me. We got a love between us and it's like electricity. It's bigger than the universe. It's bigger than the universe. It's bigger than the 2 of us. It's bigger than you and me. We got a love between us that's like electricity"


(SUEDE)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Oulipo


Antigamente, bastava carregar dores esporádicas,
factuais, grosseiras.
Hoje, imagino já liberar (à) meia-luz,
negações oblíquas, prioridades quase ridículas,
sonhos temporários.
Um vomitado xisto zunindo.
Zango-me, xingo,
verbalizo urgência, temor.
Solidão retraída.
Quando palpito, oxido nossa maravilhosa loucura.
Juvenil inocência.
Histeria.
Gracejo fel, estilhaço devaneios
Compartilhando brutalizada alegria
(Rafa.P.)
***
“Oulipo” (Ouvroir de littérature potentielle) caracteriza um movimento fundado por matemáticos e escritores na França que se embasava na “literatura potencial”. Essa “literatura potencial” era estimulada por mecanismos, regras e propostas que procuravam desenvolver uma criatividade eficaz e quase automática através de alguns exercícios.
A proposta da professora em sala de aula consistiu em escrever frases ou poemas, cujas primeiras letras das palavras escolhidas seguissem a ordem do nosso alfabeto. O poema inteiro está escrito na ordem alfabética. Na metade, há inverção e a ordem do alfabeto é colocada ao contrário.
Expressar ao máximo a potencialidade e criatividade no pequeno espaço que é dado. Conseguir reverter a proposta ao próprio favor e criar-se algo surpreendente. Bom, o que eu posso dizer de "Oulipo" particularmente, é que às vezes, ele pode ser muito divertido. :)

segunda-feira, 2 de março de 2009

∞


Respirar a natureza do mundo em sentidos plenos e permitir que a vida siga com uma leveza pueril. Contemplar os movimentos em espiral que se formam. Adormecer o impetuoso animal. Dormir com as portas do espírito abertas e sorrir mais vezes para o próprio íntimo. Elevar a humanidade e tornar humilde a pequena divindade que às vezes grita. Outras, não.

Contemplar a vida e admirar a sua enigmática face. Perguntar à alma e ouvir sua resposta. Suavizar-se. E deixar que a Arte murmure esse estranho círculo cartático e independente de engrenagens que rangem a profusão do sentir.

Ir de encontro ao Existencialismo bárbaro e deprimente das metrópoles. À anestesia indecente. À apatia virulenta.

Mas ainda sim, harmonizar-se. E exalar essa estranha calma. Transgredir. Transcender. Evoluir. E carregar dentro do pequeno corpo a extensão do Universo.

The Grotesque's Welcome Rhyme


"Hoje, assassinaremos as melancolias
Sangraremo-nas com gritos e foices
Três, quatro, nove, desenove... coices
Serviremos-nos de vossas fobias

Ontem, o grotesco abocanhou vossas filhas
E a bailarina prostituta roubou vosso noivo
A circuncisão começa do útero ao povo
Esporrarei-vos sem cortesia

Sob as lonas, dançaremos can can
quick-step, polca, valsa em trapézios
Encheis nossos bolsos de moedas, cães
e lhe daremos prazeres perversos...

Engoliremos pregos, cuspiremos martelos
Seremos porcos, podres, insanos
mijaremos santos, profanos
beberemos mercúrio e pus amarelo

Mas, cuidado com nosso "Grotesco"
Não garantimos sutilezas ou razão
Dêem as mãos ao incesto,
Santa loucura! Louco é o são...

Nem olheis demais para nossos rostos de dor
Nossos corpos mal-acabados
Não desejais nosso horror mal traçado
Pois, nos amarão, da maneira que for

Estou excitado! Rufem os tambores!
A bailarina, umedecida com curiosidade
Sejamos vagabundos de bestialidade
Respirem fundo, senhoras e senhores...

Vejo que se aproxima mais um de nós...

Vejo-o aproximar-se reticente
Farejo no ar a sua sombra
És tu, aspirante inocente?
Espera, cortina que tomba!"

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

No tempo do antes


Da época em que gritava, guardo o cansaço
A tensão na espinha
E os teus dedos saltitando pelas vértebras
Como mãos em xilofone,
Quando tu me chamavas em diminutivos
Na idéia de aprisionar a verdadeira besta,
Cujas sílabas do nome estourariam tímpanos,
Tropeçando na boca que beija
As costuras de meu joelho
A cicatriz que coça
Termômetro de chuva
De ira, de bílis, de sangue escaldado
E tu me condensavas
Com beijo, com febre, com ira em estado alegre
E o mundo se tornava quase um sussurro
Um chiar de animal adormecido
De unhas rabiscando o chão, a ti
Aprisionando o abstrato, o jorro
Para que sejam eternos no momento sem escritora
Sem tinta, sem papel
E que não se faz poesia
Mas a vive quase violentamente
No esmiuçar de mim mesma
No coagular de sentimento
De sentido
Sem ti, dor
No ofegar da calmaria
que gravita...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Grotesque


“O que eram aqueles garotos da década de 40, senão distorções da intocável perfeição pertencente a qualquer ser humano feito à semelhança de Deus? O que eram senão o grotesco assumindo uma posição de destaque no mundo? Sentando-se em lugares reservados e observando de camarote o nascer de uma época repleta de mistérios e infortúnios.
Muitos acontecimentos decorriam sob aquelas lonas de circo. Muitos personagens viriam a desfilar pelos caminhos tortuosos de glória e idolatria... O que eram os gêmeos Juan e Jullian Palmer senão absurdos de uma natureza acidental e incômoda?
Os trapezistas siameses do Grotesque possuíam dois pares de olhos, duas cabeças, um coração e meio, dois braços e duas pernas. Uma só genitália. Um abominável dom de voar sobre trapézios e um gosto particularmente requintado para o humor de fel sarcástico. Revolucionariam aquela década com suas acrobacias fantásticas e levariam o público ao delírio.
Se acham isso inaceitável ou pouco cabível, o que não dizer de Lilith Gausenburg? A inesquecível bailarina portadora de uma única perna. Como eram incríveis suas apresentações e dança com a ajuda de uma bengala. Não lembraria, ela uma bruxa saída de contos de fadas com seus cabelos desgrenhados e loiros? Uma fada com seus gestos suaves e movimentos leves...? Ou então, um belo monstro, uma interessante aberração...? Como podiam os homens da alta sociedade abandonarem suas noivas de natureza muito mais aceitável, para ingressarem em uma vida de bajulação e obsessão pela jovem? Muitos abraçariam a loucura na busca pela bailarina grotesca e pelo ícone de beleza mais popular da década de 40 na América.
Havia outros como Felicité Finnigam,a mulher mais gorda do mundo, Cheng Yu, o homem mais alto do mundo, Babe Jen, a senhora de menor estatura, Rossia Parker, a menina com nariz de porco, Fausto Greenleaf, o menino que engolia pregos, Leia Malei, a mulher canibal, entre muitos. Tudo parecia delimitado por exageros magnânimos e violáveis da estética e natureza.
Mas, o que pode se dizer da obscenidade que esse mundo envolvia? Eram de fato sexy e glamorosas ao extremo essas criaturas absurdas e incompreensíveis. Seres fantásticos que pareciam desafiar a genética e Deus. E que ainda assim pareciam exibir um orgulho bestial de suas formas doentias e bizarras. Não utilizavam apelidos. Lançavam-se nos circos de horrores com seus nomes verdadeiros e por eles, eram chamados.
Fundado em 1932, o circo Grotesque em 1940 tornou-se um marco para a vida de muitas famílias que em feriados ou finais de semanas vestiam suas crianças e iam comprar bilhetes para contemplar o artístico e exuberante mundo tão destoante de suas vidinhas. O Grotesque tornou-se uma ideologia. Não era de admirar-se que muitos visitadores do circo chegassem a extremos. Tornou-se algo como 'moda' a tentativa rotineira de crianças e jovens ingressarem no mundo surrealista do espetáculo. Muitos viriam a amputar seus membros, deformar partes de seu corpo ou forçá-los a adquirir qualquer aspecto medonho. Era a busca de um mundo que fervia entre a guerra e o novo.
A estética mais horrenda do ser humano era abraçada e idolatrada. E a perfeição, por sua vez, negada. A desconstrução humanista era admirada e dessa vez, o mundo decepcionado pelos avanços tecnológicos e guerras, buscava paliativos mórbidos e por que não dizê-lo, abomináveis. Um escoamento natural do descontentamento, da decepção e da frustração com os potenciais conhecidos e naturais.
Em campos de guerra, homens eram mutilados por bombas e tecnologia bélica. Em campos civis, jovens se mutilavam pela Arte e 'Beleza' do incompreensível e desconhecido. Talvez, ainda hoje essa Arte seja muito prematura para a compreensão ou aceitação de perturbadoras visões em tela cotidiana. Em cenário ordinário, estabelecida como culto. Da morbidez coroada como ponto de fuga. Fetiche. Recortes 'belos' da vida habitual e indigesta.”


P. Rafaella . “Little Paradises of the 20th Century”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Closer



Indicando para um amigo meu, o filme “Closer_ Perto Demais” que se inclui em um dos meus favoritos, acabei relembrando dessa produção que considero brutal, eficaz, necessária e marcante em muitos aspectos. Não canso de rever esse filme porque sempre fica aquela sensação boa de capturar-se algo que ficou nebuloso na vez anterior. Algo nebuloso inserido em diálogos que variam entre a ironia, o bom senso e a brutal e egoísta intenção de personagens irritantemente reais.
Na época, o filme foi vendido com a imagem de filme de amor e casais. E ironicamente, foi curioso ver casais de namorados saindo das salas de projeção com opiniões categóricas sobre a má qualidade do filme e seus personagens doentios. Foi um estudo antropológico particular ver o mal estar de algumas pessoas durante o filme. Por que tanto incômodo com mundo fictício, atores famosos e excelente produção de arte?
Antes de tudo, “Closer_Perto Demais” é um filme que fala de pessoas e não de amor. Aliás, fala primeiro de pessoas para daí, vir a análise do amor. E essa análise fica conosco e não com o diretor.
Todo o cerne da questão se instala no ego e de como relacionar-se afetivamente com o outro é antes de tudo, uma relação consigo mesmo. O amor muitas vezes surge como o pretexto no enredo para a exposição de inseguranças, frustrações, idealizações e um comovente estado ordinário de solidão.
O filme gira em torno de quatro pessoas: Dan (Jude Law), Larry (Clive Owen), Alice/Jane (Natalie Portman) e Anna (Julia Roberts).
Deparamos logo de início com um encontro acidental (literalmente) de Dan e Alice com direito a música de Damien Rice insistente e romantismo à flor da pele. O amor à primeira vista perdura e durante todo o relacionamento, o casal se diverte remexendo os detalhes desse primeiro encontro e reavivando todos os símbolos e situações que permearam sua união.
A relação dos dois começa a azedar quando Dan se envolve com Anna e esta paralelamente se envolve com Larry. As afetividades são compostas por idas e voltas muitas vezes inusitadas e incômodas. O masoquismo dos personagens beira a loucura quando feridos, exigem saber de seus parceiros cada detalhe da traição, interagindo com os desejos desses, antes de desmoronarem.
A minha visão particular dos personagens se apresentou da seguinte maneira em discussões sobre o filme onde tentei colocar meu ponto de vista a fim de defendê-lo:
Dan é antes de tudo um sonhador que possui problemas para lidar com a realidade. É um desses seres que se encanta com estranhos e pouco intenciona em conhecê-los profundamente. Prefere mantê-los no campo da abstração e com essa imagem interagir. Sua fantasia é o que o move e o resgata da realidade, muitas vezes desanimadora e ríspida. A quebra dessa fantasia se apresenta letal para ele durante o filme. A “perda da inocência” o martiriza e o incapacita.
Alice , sua namorada, é uma jovem que pula de relacionamento em relacionamento e os termina antes que se fadem ao fracasso. É uma personagem curiosa porque durante todo o momento ela alimenta a fantasia de Dan, construindo inclusive esse nome falso “Alice”. Na verdade, ela se chama Jane e trabalha em um clube de stripper, usando seu nome verdadeiro enquanto todas as outras strippers utilizam nomes falsos. Essa é a real. A garota da boate que tira a roupa para os homens é a personagem palpável e a que vive com o namorado e lhe dedica atenção é a falsa. Por quê? Para não se permitir invadir ou conhecer se cria falsas imagens e com isso, o relacionamento se torna ao mesmo tempo um envolvimento sem um profundo envolvimento. Isso parece tão surreal? É de fato tão distante da realidade quando escondemos nossa natureza, não desejando que o outro a veja?
Jane dorme com Larry quando Dan e Anna os abandonam. A esse, ela permite que sua verdadeira parte seja exibida e explicita seu interior, sem hesitações ou receios. Expõe seu tão bem guardado nome.
Não é mais fácil interagir com estranhos, cuja opinião não possui peso ou valor do que com um namorado, cuja toda vida de três anos está atrelada? Isso é realmente tão sem propósito e distante da realidade no que observamos diariamente? Mentir antes de qualquer possível rejeição ou retaliação parece realmente idiota?
Larry, o “observador do circo humano” muitas vezes parece ser o único que possui consciência das verdadeiras intenções e da dança entre casais que ocorre. Com uma percepção analítica e constatações contundentes, ele é um dos tipos que parecem patéticos o tempo inteiro. Mas não é. Seu desejo sexual é agressivo e ele sempre busca a memória de ex-namoradas para alimentar seu imaginário. Mulheres que talvez não tenham sido corretas e permitem o extravaso de seu lado violento, onde as parceiras são tratadas como prostitutas por ele.
Para quem viu o filme, lembrem-se da parte em que ele em uma sala de chat pornô, tem seu interesse despertado por Dan e é atirado para Anna que alimenta seu imaginário de prostituta. Depois, lembrem-se do fim, onde ele conquista o direito de permanecer com a mulher que “ama” ao lado. Uma mulher que o traiu impiedosamente e que sempre poderia ser maltratada impiedosamente. Final feliz para ele.
Por último, temos Anna, uma fotógrafa divorciada e com problemas de depressão. Que “gosta de transar sentindo culpa”. Depressivos masoquistas gostam de seu estado de tristeza e sair desse estado é mais doloroso, complicado e inacessível do que permanecer nele. Ser triste é mais fácil e talvez muitos tenham um prazer mórbido e vago em sentir infelicidade.
Então, por que as pessoas taxaram o filme de uma forma tão negativa?
Será que não é possível encontrar um mínimo de identificação entre si próprio e algum desses personagens, senão os quatro? É uma troca de casais banal e infantil? Personagens doentios?
Não é a realidade?
Na época em que “ficar” é muito mais conveniente do que se construir relações e observamos erupções de depressivos, solitários, escapistas e fetichistas não é válido fazer uma ponte do nosso mundinho para essa película?
“O coração é um punho banhado de sangue”, defende-se Larry em um momento. Romantismo, idealizações, memórias parecem uma tentativa vã de engodo para uma situação primitiva onde pessoas egoístas procuram soluções imediatistas para seus problemas, muitas vezes no outro.
Mais uma vez pergunto. Isso é tão distante da realidade?
É tão distante da realidade se juntar pessoas através de reles atração física e propósitos puramente egocêntricos? No fim, cada personagem teve seu final merecido e que os permitiu serem felizes, ainda que para nós pareçam indigestas as soluções apresentadas pelo diretor.
Vamos olhar friamente ao nosso redor e constatar se não vimos um pouco disso tudo nas relações atuais. Efêmeras, paliativas, imediatas, inconstantes. Perpetuadoras muitas vezes de nossos erros e defeitos. Egos se espremem uns com os outros e se antes, o mito do andrógino dizia que cada pessoa buscava sua outra parte a fim de se sentir completa, parece mais que cada um busca apenas um solo fértil. Qualquer solo fértil convincente o suficiente.
O amor nunca antes foi tão ferido como nos tempos atuais. Quando a liberdade foi concedida para se amar quem quisesse, fazer o que quisesse e da maneira que quisesse, as pessoas perderam o controle como perderam na maioria das libertações. E o que vemos, é o sentimento se transformando na nova droga, na fuga da realidade, na novidade, na fisiologia, no diferencial de vida ordinária, solitária, tediosa e banal.
Então, por que as pessoas saíram do cinema tão desapontadas?
“Eu amo tudo em você que dói...”diz Larry em um determinado ponto do filme para Jane. Tudo que dói nela é a verdade. E tudo que dói nas pessoas também é a verdade. Refletir sobre o estado das coisas nem sempre é tranqüilo. Aliás, muitas vezes é traumático. Repetir comportamentos e acostumar-se com as situações é demasiadamente simples. Não enxergar é muitas vezes o que move nossos espíritos.
É claro que eu adorei o filme. É claro que eu o defendi da maneira que pude na época. Já faz um tempo e eu era bem mais jovem. Sem a eloqüência amadurecida, duvido que tenha sido convincente. Espero que o possa ser um pouco mais agora.
É um filme que recomendo para todos. Para auto-análise. Para distração. Porque o filme é bom. Porque eu quero reservar esse espaço do blog para sugerir esse filme. Enfim... Vejam por qualquer motivo. Mas vejam. E duvido que a maioria de vocês não se encontre pelo menos uma vez na fala de algum personagem, no olhar, na expressão perante as idas e voltas da vida e dessa forma, se enxerguem também no cenário da vida. Para sermos menos banais e talvez assim, aprendermos a nos relacionar com nós mesmos da maneira certa. Relações interpessoais e intrapessoais andam confusas nos dias de hoje. Muitas vezes, se misturam. Vamos peneirá-las da melhor maneira que pudermos. Sem paliativos, sem fugas, sem idas e voltas. Como adultos.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Seis extremos para sonhar



Olívia exibia olhos fundos como covas e andava por estações de trem, trajando os sobretudos de lã que ocultavam a destruição. Olívia era a própria destruição. O caos de noites mal dormidas, de desejos mal desenvolvidos, de vida mal estabelecida. De tudo que era malfeito e inacabado, perdendo-se no charme da decadência. Em botas de vinil e cabelo desgrenhado. Em perfume comprado de catálogos de revista onde todos os cheiros eram mais ou menos semelhantes.
Podia romper a vida de seus próprios pulmões com cigarro mentolado e tossia duas ou três vezes quando dois ou três homens viraram a cabeça para olhá-la. Para observar o quão corrosiva a vida podia ser às vezes com coisas simples. Como havia sido com o chão sujo e desgastado da estação ou com suas paredes descascadas e ensebadas. Ou ainda, com o relógio central que estava quebrado há tempos e aprisionava todos em um único momento, transformando-os constantemente em memória e não em fato.
O que fazia Olívia deixar a si mesma arriscar-se naquele breu de escolhas? De vida? Por que gostava tanto da imundície, da podridão? Por que gostava de sair do conforto de sua cama, do convívio de pessoas adoráveis e gentis para mergulhar nas ruas?
Gostava da companhia dos piores tipos. Gostava do cheiro de bebidas e cigarro impregnado nos caminhos íngremes pelos quais andava.
Na verdade, ela fugia da casa dos avós, ansiosa para que as más companhias lhe apresentassem cada milímetro do submundo.
Havia também o ensinamento que era plenamente seu.
Estava acostumada a ir para a cama com os garotos de programa que conhecia nos passeios às estações. Rapidamente, aprendia as nuances, as regras, as subversivas.
Estava dormindo com os melhores. Mas, sabia que podia superá-los.
Quando provocavam dor, pedia que fizessem mais forte. Quando batiam, gostava de admirar o formato dos hematomas sobre a palidez da pele. Quando lhe proporcionavam prazer, rapidamente retomava o controle.
Sexo é uma forma de poder. Muito cedo, essa crença chegou até ela. Como engajamento e filosofia de correntes juvenis.
Gostava de absorver até o último segundo, os olhares profundos quando eles se entregavam ao gozo. Quando semi- adormeciam. Quando quase morriam. Quando pediam que lhes fizesse novamente. Quando se tornavam obsedantes.
Ao retornar para casa, todos lhe olhavam com incredulidade. Miravam os hematomas, as marcas e queimaduras. Sentiam o cheiro de colônia barata em seu corpo que não lhe pertencia. Thomas e Bianca mesmo lhe fitavam com nojo. Mal lhe reconheciam para falar a verdade.
E com o tempo foram se aproximando cada vez menos dela. Como se temessem tocá-la. Como se temessem vê-la ou remexer verdades naqueles olhos cada vez menos vivos. Como se olhassem para uma ferida com pus que infeccionava mais a cada dia.
Aos poucos, Olívia tornou-se um fantasma que fazia barulho no quarto de cima e que abria e fechava portas. Que passava dias fora de casa e dormia por dias quando voltava, deixando gotas de sangue nos ladrilhos do banheiro e na roupa suja.
Talvez, fosse ela apenas uma dessas criaturas desorientadas que se confundem com as instruções, com a ordem e acabam vivendo muitas vezes a vida ao contrário. Olívia começara com a morte. E como morta entrava em decomposição, esperando mesmo que inconscientemente o grandioso dia de seu nascimento.
(...)
Eu gosto de falar do caos. Espacial e psicológico.
Porque falar da vulnerabilidade humana para mim é a única forma de descobrir meus personagens. De dissecá-los ao ponto da excelência e fazê-los enxergar em si mesmos tudo que fere. Tudo que é pesado. Para finalmente transformá-los então em heróis. Conhecedores de si mesmos. Senhores estimáveis e de boa reputação.
Crio meus próprios rituais dentro da minha própria escrita. Uma maneira vaga de alinhar, dominar e sistematizar algo plenamente instintivo e sensível. Enfim...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Anaïs Nin


"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido aminótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor é como trazer um homem para dentro dela, um nascer e renascer, ato de carregar uma criança e um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela."


25 de Maio de 1932 de "O Diário Anaïs Nin", Volume 1/ 1931-1934

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Salmoura


Guardo tudo muito quietinho em algum canto
Canto do quarto
Canto dos olhos
Canto de mim
Preencho os espaços que sobram com lábios
Com voz rouca, com gestos e ironia
Sensibilizo-me intensamente
Imensamente
Às vezes, amo com o cérebro
E penso com o coração
Inverto a ordem
Ordem a inverto
Inverto a mim mesma
As cores
E guardo no canto
Para a vanguarda
Para a vã guarda
Silencioso no canto
Rabiscos, essência, brutalidade
Volúpia, vasos sangüíneos.
Instinto,
doçura
Tudo ao alcance da mão
Embalado com fitas
Conservado no tempo
Embrulhado
Intacto

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Fero


É verão. Houve chuvas e friagem. O clima anda mais obediente nesses dias. As noites são quentes e eu demoro para dormir. Atravesso as madrugadas escrevendo. Ouço os cachorros da rua latindo para fantasmas e faço da madrugada a melhor hora do dia com minhas esquisitices. Com minha solidão inspiradora. E com o som de pás de ventilador cortando ar quente.
Os sonhos são entrecortados e sei que os murmuro dormindo. Relembro a vida vivida durante o dia. E também da vida vivida durante os anos. Adormeço ao som de Björk e as frases flutuam em limites de inconsciência. Consciência. Subconsciência. E se tornam algo tão meu quando acordo... Transformo voz e música em algo primitivo. Transformo o sono em algo complexo.
As tardes são terríveis. Sinto a pele febril, a respiração ofegante e o corpo exaurido sem nenhum real prazer do qual possa me satisfazer. É apenas o calor. Sinto o calor maldito e os raios de laranja concentrada parecem querer arrancar as vidraças, as cortinas, a escuridão de meu quarto. Tocam os móveis com seus dedos oblíquos. Meus livros, meus CDs, minha cama. Tudo é invadido pela luz que derrete e maltrata.
Quando o sol se põe, me escondo. Corro para o lugar que não é segredo. Subo os degraus que me levam para o terraço e observo aquele soberano se pôr entre as casas. O céu possui tons de sépia. O gato vem e ronrona se esfregando em minhas pernas. Quase tropeço no último degrau. Ele me olha com aqueles olhos grandes e verdes. Às vezes, amarelos.
Afia suas unhas em meus calcanhares. Não me importo. Vejo-o passear elegante sobre os muros sempre com aquela expressão de superioridade. Com aquele ar de “Se comporte quando estiver em meu território...”. Acho mesmo que sempre fui mais dele do que ele foi meu.
Sento no chão e gosto de não pensar. Suavizo-me. Quase evaporo. Não reflito mais sobre minhas disparidades. Meus conflitos. Minhas nuances. Meu ter que fazer. Minha quebra de regras. Meu pensar que é pensar desde que lembro e trabalha em sentidos confusos. Inquietos e adoráveis.
Às vezes, vejo relâmpagos e raios no horizonte. Por cima dos telhados das casas. Vejo o céu se estilhaçar por luz elétrica antes de voltar a ser só um novamente. Vejo o infinito se romper por um segundo.
O gato tem medo de relâmpagos. Pula em meu colo e se acomoda. Acaricio suas orelhas.
Vejo o céu agora. O vento. A tempestade que se aproxima. Vejo meu pai olhando eu olhar para o nada. Ele acha que estou me acabando. Que esse sentir que não compartilho é misterioso. Suspeito. Preocupante.
Outras vezes, o confunde com frieza. Com dissociação do mundo. Com alienação bárbara e inconcebível. Com perigo em combustão.
Quase me aborreço por sempre acharem que tenho algum plano mirabolante em voga. Que ainda resta algum mistério.
Exponho-me tanto na escrita que meu DNA poderia ser medido por grafemas. Seria um mapeamento violento de linhas, prazer, cólera e frases. É algo tão explícito que poderia ruborizar diante de tudo que já disse.
Essa prostituição de idéias mal paga me excita. Deixa-me subindo pelas paredes. Escrever é um prazer. É estímulo. Masturbação compartilhada. Subversiva. Imoral.
Estimular o ego diante de uma platéia atenta para verem até aonde podemos ir. O quanto se pode agüentar antes de perder o controle. A consciência. Entrego os mistérios de mãos beijadas. Os pontos.
Suavizo-me. Evaporo...

sábado, 27 de setembro de 2008

“Não sou jovem o suficiente para saber tudo".(Oscar Wilde)

...

Relendo algumas postagens antigas de meu antigo blog, constatei que muitos pensamentos meus amadureceram impecavelmente, sem notoriedade, sem esforço. Amadureceram como todas as coisas orgânicas costumam fazer.
Isso é o suficiente para me sentar em um café em meio a um dia nublado e deixar que a vida, a efervescência, o orgânico também se insinuem ao meu redor. Relaxando, observando as coisas através de uma visão mais diligente, mais analítica, carregando segredos tão codificados (e ao mesmo tempo, tão óbvios) em uma residência mais interna do que o coração, estou feliz a ponto de beijar as mãos de estranhos e lhes murmurar palavras doces de um convívio, de uma co-existência satisfatória.
Como já fui? Como costumava ser?
Na infância, era tímida, calada. Permanecia no batente da porta de outra vida que vivi antes dessa e ocasionalmente, entrava em choque com essa realidade. Costumava me isolar e ao contrário do que meus pais acreditavam, era feliz assim.
Criava histórias em minha mente que me faziam rir ou chorar. Sem compreender, as pessoas me olhavam como se fitassem um problema em miniatura que cresceria e traria danos. Na pior das hipóteses, seria infeliz. E isso, na melhor das hipóteses, não teria nada a ver com os outros.
Na adolescência, fui barulhenta. Inconformada. Batia portas, quebrava objetos, levantava a voz como se levanta uma pena. Costumava me eriçar como um gato quando diante de coisas que odiava. De pessoas que odiava. A ira era amarela e púrpura. Lembro bem dela.
Tivemos um caso de amor obsessivo por anos. Sem perceber, fornicávamos já sem que eu percebesse. Sem perceber, tornei-me intragável algumas vezes. E a solidão já não era mais uma questão de escolha, mas um destino certo e inevitável.
Então, comecei a me envolver com sentimentos mais pesados. Drogas naturais. Injetei ódio, melancolia, desprezo, amargura e por fim, tudo culminou em uma overdose de depressão.
Entretanto, olhando para trás, para todos esses quadros pintados com cores vivas, enxergo alguma essência minha que morreu, modificou-se ou renasceu em meio aos pigmentos ocre de areia e poeira. Talvez, somando-se os pontos ou ligando-os, uma linha precisa de acontecimentos, fatos, decepções e alegrias formem um belo desenho que representará a paz de espírito que finalmente senta-se ao meu lado para tomar um café.
Não sei dizer quando exatamente fiquei assim. Quando me tornei mais calma, mais dócil...
Lembro-me de uma menina que tinha medo do mundo e preferia viver no seu próprio universo. Lembro-me também de uma outra que repudiava a forma de ser de tudo. Que desprezava todas as existências e por fim, acabou odiando a si mesma.
Algumas vezes, lembro-me de uma mulherzinha mais recente, mais feliz, mais contemporânea, explodindo em gargalhadas que transmitem boa vontade, bem estar. Sensações naturais raramente sentidas que chegam agora com a força, com a brutalidade de ventanias adormecidas. Penso nela aproveitando também a companhia de seu velho amigo de infância, chamado silêncio. Construindo pontes para dentro de si e para fora do mundo. Utilizando a escrita para falar de si mesma porque atualmente gosta de fazer barulho, sem exaurir-se, sem gritaria, sem ira.
Chorar, ainda choro ora sozinha, ora diante daqueles que amo. Com as mãos entrelaçando-se nos cabelos enquanto o rosto se avermelha.
Nunca senti vergonha de chorar. Não dói. É tão natural quanto sorrir. Não mata, se sentido na medida certa. Nada de vícios. Alivia a pressão...
Afinal, não sentir, sim, é indecente.
Tomando café com essa estranha paz, com essa calmaria, com essa transcendência que às vezes, também não compreendo, mas que me cativa, me retêm com sua beleza, com sua suavidade, sua sutileza em erupção quase vulcânica, enxergo que mudei e isso me deixa satisfeita. Aliviada. Quase convencida de que todas as coisas são como deveriam ser. E que estou exatamente onde deveria estar.
Eu me levanto e observo aquela dama de olhar infinito e me descubro apaixonada... Reflito.
Pensando bem, nunca me conformei com nada mesmo, nunca parei, nunca saciei uma sede de conhecimento, de vida que trouxe ainda da existência passada na bagagem de ações não-concluídas. Meu limite nunca foi o céu. Talvez, seja realmente o infinito. O incalculável. Esse símbolo cardinal deitado, tatuado em meu pulso.
No entanto, é uma inquietação mental, tão calma, tão morna, tão lânguida aquela que me nutre agora. Como cera derretida. Como se todas as respostas estivessem expostas ao sol.
Finalmente, eu nasci. E o DNA invisível que devora cabelos, unhas e sangue para existir sob a forma de algo não palpável como conhecimento e aprendizado se desenvolve mais útil. Mais relevante. Instala-se no coração e na mente. É o que se carrega mesmo depois da morte.
Sábias culturas antigas eram aquelas que devoravam o coração e o cérebro de seus entes queridos ou inimigos, a fim de incorporarem suas virtudes e sabedoria. Elas já sabiam o caminho certo da alma.
Porém, pecavam em seus métodos. É preciso ir mais fundo do que a carne, do que as artérias, do que a cerne. É preciso viver. Essa é a premissa básica do “ser”. Não se burla essa regra. Não podemos contorná-la. Tampouco, lubridiá-la.
Isso é justo. Reflito eu diante da xícara fumegante, olhando a cidade mergulhada em cinza através da vidraça. Isso é lindo. E é excitante pensar que ainda não vi tudo.
Α . Ω . ∞

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Letter to the kid


Meu querido,

Antes de ti, a melancolia, a autopiedade, o sarcasmo e a arrogância de nosso século. Minhas confabulações com um “eu” que envelhece e se torna mais divisível do que Freud poderia supor. Um rosto sangüíneo de olhar cáustico, cujos traços carregará consigo algum dia, sentindo sobre a epiderme o peso de gerações, genes e de todas as coisas que residem na nossa tímida árvore.

Agora, a ti pertenço e a ti escrevo febrilmente nesta manhã de junho de 2007. Ainda não habitas este mundo.”Corre na brisa, sem carne, sem nome” como o filho de Drummond. No entanto, te imagino tal qual serás, exibindo um imbatível espírito. Pois, eu, sua mãe, seu amor, o ensinarei a não cometer erros símiles aos meus em sua vida. Serei mestra sua, para que exista com paixão e consciência em um mundo que apodrece e se renova a cada momento, a cada suspiro, a cada palavra.
Primeiramente, nunca seja aquilo que querem que o seja. Seja apenas aquilo que você é. Pois, exigirão de você que caminhe em um mesmo compasso que a humanidade rotulada se move. E isso o fará infeliz em incontáveis dias, meu filho. Dessa forma, seja sempre você mesmo. Seja vários como Fernando Pessoa foi, mas desde que todos partam de sua natureza bela e não das mãos de um artesão das próximas décadas.
Cultive amigos e seja amigo daqueles cujos afetos verdadeiros se direcionarem a você. Pois, a amizade é uma misteriosa força que muitas vezes, será a única que sobrará em dias turbulentos. “Ser responsável por aquilo que cativas”. A eles, se dê também sem economias ou má-vontade, para que encontrem também em você amor, meu pequeno príncipe.

Se apaixone algumas vezes em sua vida, mas nunca tome isso como hábito ou passatempo para que a emoção não se torne a fisiologia de todos os dias. Silvestre amou várias com seu coração, até que este se esvaiu, sobrando apenas a cabeça e o exigente estômago. Se apaixone por virtudes mais duradouras que as formas e também se apaixone por si mesmo algumas vezes, sobretudo quando partirem seu coração.
Não seja egoísta. Não seja egocêntrico. Não seja esnobe. Pois esses três “es” são características realmente odiosas em qualquer ser e, mesmo que eu nunca possa odiá-lo, posso me entristecer ao olhar para você e vê-lo como alguém intragável que se instalou em meu ventre, sem aprender que todas as vidas dependem uma da outra.
Tome demasiado cuidado com estranhos prazeres que se tornam cada vez mais acessíveis, pois eles podem matar o gosto por prazeres comuns.
E o “comum” muitas vezes é a tênue linha entre insanidade e juízo.
Acredite em algumas verdades dos livros, mas não confie naqueles que se propõem a concluir todas as coisas da vida por você. Se puxares a mim, odiará livros de auto-ajuda e afins.
Talvez, resida em você a depressão que muitas vezes senti em minha vida. Contra ela, você terá apenas você mesmo. Não a eleve ou a subestime. Pois, nisso reside um erro primário para que ela te devore.
Lembra-te? “Decifra-me ou devoro-te?”
Após refletir sobre a dor e sua essência desprovida de endorfina, após compreender seus enigmas e refletir sobre eles, compreenda que a resposta de tudo é o homem. Apenas em ti, através de ti, curará esse mal de todos os séculos muito menos belo do que aquele testado pelos Românticos. Nada de músicas que te afoguem mais do que já esteja, nada de álcool ou pílulas. Ao invés disso, a força da evolução aos traumas através de mim viverá em sua carne, em seus ossos.
Desenvolva gostos sensíveis e estéticos, sem serem ditados por mim e por seu pai, apesar de às vezes, indubitavelmente eu tentar lhe impô-los. Não esconderei de você meu júbilo caso o surpreenda admirando a arte Impressionista, as Vanguardas européias, a literatura como ápice da criatividade humana, filmes de Almodóvar e Bertolucci, música dos Beatles e ABBA, rock britânico e oriental, desenhos japoneses, quinquilharias chinesas, pôr-do-sol, Bossa-Nova, yaoi, manga, Clarice Lispector, esmaltes de cores berrantes, chocolate, cachorros e gatos, Harry Potter (este tão agredido pela mídia “intelectual” de minha época, sem receber o devido mérito pela criatividade sensível e pesquisadora de J.K.Rowling), sorvete de cereja, bombom “Caribe”, incenso de Flor-de-Lótus, youtube, etc.
No entanto, caso não ame nada daquilo que eu amo, espero que ao menos, divida comigo todas a coisas, paixões e cores que se destaquem para você no cenário monocromático da vida. Você encontrará em mim, uma preocupação e curiosidade sobre todas as coisas que te rodeiam que por vezes, irá irritá-lo. Quanto a isso, nada poderei fazer. Pois, todas as vezes que tiver decidido ser mais comedida, me flagrarei sendo novamente a pessoa que mais te quer bem no mundo.
Não alimente em ti, preconceitos e rancores de qualquer espécie. Pois, eles também me entristecem. Cores, gêneros e credos são as diferenciações mais brilhantes criadas. Caso contrário, Deus se confundiria quando nos chamasse pelos nomes.
Compreenda as pessoas e suas diversidades.
“Ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida”. Observe tudo muito bem. Para que com o “tudo” aprenda a duelar e se harmonizar com todas as coisas, incluindo a si mesmo.
Se eu conseguir me tornar alguém melhor até o dia de seu nascimento, gostaria de ensiná-lo também a não odiar. Pois, odiar é cansativo. E o cansaço anula todas as coisas que te enumero nesta carta com a mesma violência que um titã devora o sacrifício consciente de alguém que paga por seus próprios erros.
De resto, deixarei para ensiná-lo quando estiver junto a mim. Como Oswald de Andrade, descobrirei que a poesia viva no desconhecido paira em ti. Somente em ti. Para sempre em ti.
E caso, através de todas essas filosofias juvenis, não conseguires tornar o mundo um lugar mais confortável, se todos vaiarem sua declamação existencial, desculpo-me contigo, porque sou também uma criança tentando fazer arte. E você será minha tela, meu conto, minha sonata, meu ato mais perfeito. Insuperável, inigualável, incomparável. Os três “is” de minha vida pairando em seus olhos cáusticos como os meus, aconteça o que acontecer, digam o que disser. Serás “Meu Amor Vitorioso” em meio a todas as artes existentes na natureza e no metafísico.
Amo-te desde já e te amarei mesmo no depois quando eu for apenas a carta amarelada e envelhecida que restará como lembrança de carne e ossos tostados, transcendência alcançada, morte e poeira... que assopras.

Sua mãe,
Rafaella

Esse foi o último trabalho entregue na oficina de "Oulipo". A proposta de texto consistia em escrever uma carta a um(a) futuro(a) filho(a), utilizando algumas marcações específicas que cada aluno(a) vinha utilizando como uma constante em seus textos.

Além disso, deveria haver referências a autores cânones e elementos presentes na arte em geral. Eu utilizei alguns autores como Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Saint-Exupéry, Camilo Castelo Branco, etc.

Também mencionei algumas obras de arte famosas como "Amor Victorioso" de Caravaggio e fiz menção a "Semana de Arte Moderna de 22".

A idéia foi pautada através de uma carta que Umberto Ecco havia escrito ao seu filho recém-nascido, incentivando-o à brincadeira com armas na infância, para que através do ridículo dessa situação, ele abominasse armas em sua vida adulta.

Acho que foi uma das apresentações de trabalho mais interessantes que houve durante toda a oficina literária. Foram lidos textos brilhantes e muitíssimo variados. Ninguém caiu no ponto comum e várias vezes, ouvi frases arrebatadoras da boca de meus colegas.

Se algum dia eu tiver realmente um filho, talvez eu faça ele ler essa carta escrita já há um ano atrás, com algumas coisas a mais inseridas com minha cabeça do futuro.

Estranha, essa capacidade de arrancar algo de si e dar a algo que também foi arrancado de si. Quase uma redundância... Mas é fato que sempre dependi da escrita para me entender, para me fazer entender, para me rebelar, aceitar, indagar, modificar e criar.

É natural que essa seja para mim a melhor forma de falar com uma criança. Ponto para "Oulipo"...

terça-feira, 27 de maio de 2008

Obsedante


OBSEDANTE

Pra você que ama palavras e diz que não sou romântico
Pra você que também não é romântico e ama poesia
Pra você, poesia romântica...
De alguém que não é romântico
E que também ama poesia
Da mesma forma como te ama
Poetizando todo esse amor
Quase violentamente...
Como o colidir de dois egos
De duas pessoas nada românticas
que amam poesias
E acabaram se amando
Sem perceber que o amor
mesmo o dos não românticos
É a mais fina poesia

Então, em silêncio
Te recito poesias
O temperamento de alma não romântica
Que poeticamente ama...
E vc muito quieto, escuta
Porque ama poesias
Mesmo não sendo romântico
Ama e é amado
Como nas mais românticas poesias
Que mesmo não sendo romântico
Sussurro para ti

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Nove ponteiros


“'Onde está você, menina?'”
Longo tempo. Sete anos, talvez tenha. Não, oito. Arredondemos para nove. É mais adequado. Inexato. Inexpressivo. Imperfeito. Nove...
É assim que aquele velho tutor me chama. É assim que o atendo. E nos entendemos. Linguagem de amantes. Vocabulário de ofídios.
Ele é velho. É o tutor. Velho. Tenho nove. Sou sangüíneo. Lânguido. Rosto de boneca. Falsa inocência. Sou garoto. Ele é homem. Desses de cabelos grisalhos e voz pastosa.
O homem que me faz menina. Aquele que esmigalha minhas pélvis. Minha inocência. A alma... Ele nutre desejo. Cultiva-no em dança sinuosa pelo corpo. Escorpiões sobre a virilha. É a besta selvagem que quer devorar meu fluxo. O fluxo adocicado como licor. Sou sua menina. Danço em seus dedos. Amantes. Eu quero. Sou consciente. O caos. A calamidade suave não crescida. A inquietude da pulsação. O enrijecer da fibra. O umedecer. A decisão. A situação. Sou o lampejo do pecado.



Na sala vazia, o titubear de ponteiros. Os móveis ao sol. A porta trancada.
Apenas as moscas debatem-se contra as vidraças. Entoam seus zumbidos de melancolia doentia. Perdem as asas. Estraçalham-se perante aquela transparência plana. Estão loucas. Tocariam a androginia marmórea do garoto precoce. A aspereza temporal do homem. Farejam a imundice. São as borboletas de um amor apodrecido. De uma paixão colérica. E de todas essas coisas estragadas ao sol.
A porta trancada. O tutor ensina a lição mais importante. Ensina a técnica do prazer abominável. Sem forma. Intenso. Apenas a corrente de ar que faz tremer as cortinas. O raio solar oblíquo da tarde. A pressão daquele corpo em minhas costas. Das mãos em meu rosto. Do revérbero caótico. Tudo sendo sustentado pelo ar seco da tarde. Pela instransponível assimetria dos corpos.
Grito agora ao mundo que ele me maquiava como uma menina. Que me amava da forma mais louca que pode amar-se. Da maneira mais dolorosa de sentir. Que era obsessivo pelas formas retas da pouca idade. Pelo afeto insensato de uma criança que viria a tornar-se seu melhor aprendiz. Que sabia curvar-se ou erguer-se no momento certo. Que sorria quando esclarecia-me que a porta de meu quarto deveria estar sempre aberta a partir das nove.


O tutor ensina lições para uma vida e suas reencarnações. Sou criança. Queimará ele no inferno? Sou umedecido. Envelhecido com nove. Ele é velho. Enlouquecido por mim. Chama-me de abstrato. Surreal. Expressivo. Impressionante. Mas, acima de tudo, sanguíneo. Impulsivo como apenas meninos e meninas podem ser. Como querem ser.
É o tempo que arrebenta os ferrolhos da porta. É o titubear de ponteiros que me arranca daqueles braços. Que nos faz abortas emoções. Que me faz perder o interesse pelo corpo enrugado. Pelas mãos ásperas. Pelos fios prateados. Que o faz adoecer. Que me torna perceptivo do horrendo. Do grotesco. Que me afasta. Que me permite abandoná-lo.
E é após nove anos que descubro sobre sua morte. Que morreu solitário. Que chamou meu nome até o último momento. Que falou de sentimentos febris. De amores insustentáveis. E de tardes lânguidas.
Então, me arrebento. Perco a consciência. A última sutileza de inocência. Aprendo a última lição. Aprendo sobre a loucura. A loucura do amor. Amor é a destruição. A decadência. A cólera. É um homem que desaprende a viver. Que sente a dor como parte de seu próprio corpo. Que chora. E que morre...
E tudo que ele queria era sobre meu corpo viver. E tudo que ele queria era em mim poder viver. Viver. Ele ainda vive em mim..."




Texto antigo de 2004 apresentado na oficina literária da professora Helena Parente da UFRJ.
Foi nas aulas daquela mulher inteligente que aprendi a força, o universo, a semântica de cada palavra. Aprendi que cada linha em branco é um gigante, um monstro ou um paraíso em gestação.
Com ela, aprendi não somente a narrar fatos, mas também a anunciá-los. Tal qual se anuncia uma guerra, um novo amor, uma morte ou uma vida...