quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ao Útero


26 de Novembro



Ontem, Lígia sorriu com as fotografias das águias-pesqueiros no Chile.

Para surpresa minha, houve curiosidade da parte dela sobre os cartões enviados por minha mãe no mês passado com a imagem dessas aves semi-extintas.

Silenciosamente, ela observava os contornos das penas manchadas de negro enquanto me ouvia falar sobre as estruturas das águias, seus métodos de caça, suas teimosias e a busca pelo macho apenas na época de nidificação.

“Águias estabelecem um relacionamento monogâmico que dura apenas uma estação... Depois se separam e prosseguem...”_ murmurei enquanto o sorriso de Lígia morria distante e vago, alçando vôo em tentativa de deixar o chão, mas preso nele por pedras amarradas.

Ficamos em silêncio e quando fomos para o quarto, Lígia olhou com desprezo o diário deixado sobre a cabeceira.

“Preferia que não escrevesse nesse caderno idiota sobre mim...”__ murmurou ela com azedume enquanto se despia. O seu cabelo se desprendia naquela forma irregular pela medula.

“Não escrevo sobre você, professora. Escrevo sobre mim. Não foi o que pediu para sua classe? Para que escrevêssemos sobre nosso cotidiano em diários, a fim de tornar nossa escrita menos bestial?”

Ela permaneceu em silêncio revivendo sua didática e a vinculando à sua prática. Lígia parecia uma criança surpreendida em contradição. Seu nariz se mantinha no alto e a voz, seca como casca de ferida.

“Vai parar de escrever sobre nós dois quando então?”

“No fim do ano letivo...” respondi sem pensar, me livrando dos tecidos que ainda me prendiam naquele uniforme de força.

Ligia olhou novamente o caderno com uma profundeza que eu não podia alcançar. Era preciso mais tempo.

“Por que sua mãe te mandou fotografias de águia do Chile?”__ perguntou ela interrompendo meu movimento de beijar-lhe com um desejo que despontava em mim violento e infantil.

Dei de ombros.

“Sei lá... Acho que ela estudou biologia um tempo na faculdade. Gostava de aves. Dizia que eram excelentes mães por se livrarem cedo dos filhotes. Quanto mais cedo elas empurram os filhos no ninho, mais cedo eles aprendem a voar, era o que Isabelle dizia...”

Lígia franziu o cenho. Suas sobrancelhas escondidas por trás da franja. Demorou um tempo para ela vir a ter comigo. Não era a primeira vez que ela estava distante. Precisou que eu despertasse nela a urgência de corpo e não de alma para que ela pousasse.

Aquecia-lhe com a carícia entre suas pernas. Em beijo.

Após isso, o quarto nos absorveu totalmente. Lígia abriu-se para mim como sempre conseguia persuadi-la a fazer. Não foi rápido.

Seu retorno exigia tempo. E o seu tempo me proporcionava retorno. Meu prazer.

Quando acordei, Lígia não estava mais lá. Havia voltado para a escola.

O meu diário estava aberto sobre a cabeceira, como certamente não havia o deixado.

Avançado em seu tempo. Corridas algumas páginas. Como se as folhas até dezembro houvessem sido contadas.


Um comentário:

Priscila disse...

Esse trecho me fez pensar de uma forma curiosa... a atração de Lígia pelos pássaros e o súbito interesse por Isabelle me fizeram pensar que elas são bastante contrárias. Me passou aqui uma impressão de que Lígia gostaria de ter a liberdade que a mãe do Paolo e ele próprio têm.
O que faz a Lígia estar distante assim? Fiquei curiosa!
seu livro me desperta uma avidez interminável Rafa, go on!